Para evitar fechamento de lojas, franquias repassam unidades para novos donos

Em dificuldades por causa da crise causada pelo coronavírus, muitas lojas correm o risco de fechar. Segundo o IBGE, 40% das empresas encerradas recentemente atribuíram o motivo à pandemia. Em alguns casos, são negócios normalmente rentáveis, localizados em bons pontos comerciais, mas que não resistiram ao período de isolamento social por falta de capital de giro. Para não perder o ponto e não diminuir sua rede de lojas, as franquias utilizam o repasse para salvar unidades em risco.

Funciona assim: o franqueado que não tem mais interesse em manter sua unidade – seja por dificuldades financeiras ou por outro motivo, como mudança de cidade ou aposentadoria – pode vender sua franquia para outra pessoa. A franqueadora participa do processo, pois precisa aprovar o novo dono. O negócio pode ser oferecido para outros franqueados da rede ou para um candidato novo, que está no processo de seleção. Outra opção é a própria franqueadora assumir a operação.

Segundo levantamento da ABF (Associação Brasileira de Franchising), 12% das franquias tiveram as atividades suspensas e 0,5% foram encerradas de vez no mês de abril. Para quem permaneceu no mercado, a queda no faturamento foi alta: 48,2%. Os segmentos mais afetados foram turismo, entretenimento, alimentação e saúde, beleza e bem-estar, de acordo com a ABF.

Repasses de lojas devem crescer com a pandemia

A entidade começou agora a medir o número de repasses de franquia, e a expectativa é que ele cresça, pois essa é uma estratégia muito usada em épocas de crise para evitar fechamentos, segundo André Friedheim, presidente da ABF.

“O novo empreendedor, de forma geral, costuma aportar novos investimentos, conhecimentos e disposição para tocar o negócio. Temos muitos casos de sucesso e exemplos de que uma nova gestão do negócio, mais próxima, pode, de fato, mudar o jogo”, afirma Friedheim.

Um exemplo é o franqueado Fernando Pimentel Fiori. Em fevereiro, ele assumiu uma unidade repassada da lavanderia 5àSec, na Lapa, em São Paulo. Desde então, toda a gestão foi reformulada, até por conta da pandemia, com a oferta de delivery gratuito de peças e promoções nas redes sociais. Ele diz estar satisfeito com o negócio. “Após a pandemia, quero comprar uma segunda unidade da marca”, afirma.

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Quais as vantagens de comprar uma franquia repassada?

A principal é receber um negócio já pronto, sem precisar lidar com obras para abertura, contratação e treinamento da equipe. Outro benefício é herdar a antiga clientela, se houver. Isso pode ajudar a antecipar o retorno sobre o investimento. Em alguns casos, o investimento é menor do que para uma unidade nova.

O preço, porém, é um ponto crítico nesse tipo de transação, segundo o consultor especializado em franquias Luis Stockler, da consultoria BaStockler.

“Em geral, quem está vendendo quer recuperar o investimento que fez, o que nem sempre acontece, principalmente se a empresa tiver dívidas. Neste momento em que o ambiente de negócios é ruim, também surgem ‘oportunistas’ querendo comprar por um preço muito barato. A franqueadora precisa saber precificar tanto para não depreciar a marca quanto para não valorizar demais a ponto de espantar compradores”, declara.

Na rede de alimentação saudável Mr. Fit, um ex-franqueado conseguiu recuperar o investimento que fez ao repassar a sua unidade, no shopping de João Pessoa, a outro candidato. A loja estava aberta há apenas três meses quando a pandemia obrigou o fechamento. O delivery não foi uma opção porque o transporte público na cidade parou e os funcionários não conseguiam ir ao trabalho. Precisando de outra fonte de renda, o antigo franqueado pediu ajuda da franqueadora para vender a loja.

“Ofereci o ponto para um candidato que estava no processo de seleção e ele aceitou. A loja só vai reabrir em outubro, mas estamos criando condições para a operação ser rentável. Negociamos o aluguel com o shopping e isentei os royalties de toda a rede até o fim do ano. Para mim, não é interessante fechar”, conta Camila Miglhorini, CEO e fundadora da Mr. Fit.

Royalties são a taxa mensal que o franqueado paga para a franqueadora pelo uso da marca e pelo suporte oferecido, como treinamentos e consultoria.

Outros restaurantes enfrentam dificuldades. Sem poder abrir no horário do almoço, os restaurantes de shopping centers perdem ⅓ do movimento. Redes como Divino Fogão, Patroni, Pizza Hut e Starbucks preferiram não abrir todas as unidades. Há lojistas que estão faturando R$ 50 por dia.

Quais os cuidados ao comprar uma franquia repassada?

Segundo o consultor, o cenário atual impõe um desafio: saber se as dificuldades atuais do negócio foram impostas pela pandemia ou se elas já existiam antes.

A dica dele é pedir demonstrações financeiras mensais dos últimos dois anos. “Se não tiver ou tiver apenas dos últimos seis meses, não serve. Elas são necessárias para avaliar as chances de recuperação da empresa”, explica Stockler.

Também é necessário por no papel todas as dívidas, se houver, para que sejam abatidas do preço a ser pego pela loja. Tudo deve estar bem documentado em contrato.

Segundo a advogada Renata Pin, do escritório Andrea Oricchio Advogados, o motivo mais frequente para o repasse de franquia é a insatisfação com a marca. Por isso, ela recomenda que o comprador converse com outros franqueados da rede para conhecer a realidade do negócio.

“Em geral, o franqueado que quer repassar é o que está em dificuldade. Muitas vezes, ele mesmo dificulta o negócio, porque reclama, fala mal da empresa para os conhecidos e, mesmo assim, quer vender. Às vezes, o negócio é ruim mesmo, não tem como recuperar”, afirma.

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